Arquitetura e Acessibilidade nos cinemas
20/01/2014

Arquitetura e Acessibilidade nos cinemas, por Thaís MilaniArquitetura e acessibilidade é um jogo entre o espaço disponível e as normas. Com o final da Segunda Guerra e da guerra do Vietnã, Europa e Estados Unidos passaram a se deparar com a necessidade de se acolher em espaços públicos a presença de pessoas com necessidades especiais – cadeirantes, deficientes visuais, deficientes auditivos entre outros. Nos anos 70 começaram a ser esboçadas leis para impor a criação de adaptações em espaços de trabalho, ensino, cultura e lazer.

Esse tema só entrou em pauta no Brasil entre as décadas de 80 e 90 e apenas nos últimos 15 anos essa enorme parcela da população passou a ser vista nas ruas, em escritórios, nos parques, teatros, shows e cinemas.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), 10% da população de cada país tem algum tipo de deficiência. Somente na cidade de São Paulo são 2,8 milhões (segundo dados do IBGE) que devem ter garantidos seus direitos de acesso a todos os espaços públicos, transportes e espaços de lazer.

Ao mesmo tempo em que leis, normas e regras foram sendo criadas e ditadas – entre elas a NBR 9050 e o Manual da CPA (Comissão Permanente de Acessibilidade) de São Paulo -, os empresários passaram a investir na sustentabilidade de seus negócios e em projetos sociais, neles incluídos o obrigatório respeito aos portadores de necessidades especiais. E desde a entrada em vigor da Lei de Cotas, em 1991, as empresas foram obrigadas a inserir em seus quadros portadores de necessidades especiais.

Foi nesse momento que os espaços públicos e comerciais passaram a necessitar de amplas reformas que atendessem às normas e acolhessem a presença dos cadeirantes, das pessoas que usam muletas ou bengalas, dos deficientes visuais e auditivos, entre outros portadores de deficiências.Os arquitetos então mergulharam de corpo e alma neste grande desafio: manter a criatividade na elaboração de espaços atendendo a todos os pré-requisitos para a acessibilidade.

Atualmente, para todos os espaços públicos e de lazer, edifícios comerciais e até residenciais multifamiliares, são necessários projetos que contemplem a acessibilidade.

E quem frequenta as salas de cinema percebe claramente a importância dos projetos arquitetônicos com esse foco. É um grande desafio atender a todas as normas e legislações de órgãos públicos, assim como a normatização da própria rede de cinemas, no desenvolvimento de projetos que muitas vezes têm que se adaptar a áreas compactas e pré-definidas e criar espaços agradáveis e confortáveis para todos os usuários. A FMC – Ferrés, Milani & Campanhã Arquitetura, desenvolve projetos para clientes em diversas áreas de atuação – agências bancárias, edifícios corporativos, indústrias, etc. – onde aplica as normas de acessibilidade.

Porém, nas salas de cinema as demandas são constantes e os projetos mais questionados já que frequentados por um público grande e diversificado em todo o território nacional. As normas se aplicam a todas as áreas públicas de um cinema, principalmente nos acessos, bilheteria, bomboniere, circulação, sanitários e posições na plateia.

As salas começam a ser projetadas a partir do número de poltronas que estarão disponíveis. Desse total, em média 2% dos lugares serão especiais para cadeiras de rodas, incluído um acompanhante ao lado. Os lugares especiais podem ser distribuídos em várias partes da sala, prevendo sempre a necessidade de rampas com inclinação suave. Os cadeirantes devem ocupar lugares em que sejam respeitados ângulos pré-determinados entre o ponto de visão e a tela para uma perfeita visualização.Para os deficientes visuais, o piso deve ser tátil no início e final das escadas e rampas. No início e final de corrimãos de escadas e rampas deve haver sinalização em Braille.

Para que um cinema em São Paulo receba o selo de “acessível”, deve sempre estar de acordo com todas as normas da CPA. E a cada nova demanda, novas reformas são promovidas.

Trabalhamos dentro de um jogo entre o espaço disponível e as normas. Mas não podemos perder o foco do bem-estar e respeito às pessoas com necessidades especiais, desde o momento em que chegam à bilheteria, passam pela bomboniere, utilizam os sanitários, acomodam-se nos lugares e assistem ao filme.

Thaís Milani é arquiteta desde 1981 e sócia da FMC – Ferrés, Milani e Campanhã Arquitetura desde 2003.| FMC

Norma ABNT assegura garantias
31/12/2013

Norma ABNT por Renata MarquesA Norma ABNT, segundo Renata Marques, arquiteta especializada na área técnica, contribui para elevar a qualidade e funcionalidade dos empreendimentos, além de assegurar garantias mínimas aos compradores.

O mercado de construção civil vive uma grande mudança. Desde 19 de julho, as incorporadoras passaram a atender uma nova norma técnica de desempenho para protocolarem projetos habitacionais junto aos órgãos responsáveis.

Desenvolvido pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), o conjunto normativo tem como finalidade centralizar todas as diretrizes para o setor, além de representar, para proprietários e moradores, a garantia de estar adquirindo um imóvel de acordo com todos os padrões exigidos e com qualidade.

Ampla, a norma abrange desde aspectos estruturais até de acabamento e funcionalidade, ditando parâmetros para características que impactam diretamente no uso do espaço e acabam refletindo na vida dos moradores.

A arquiteta Renata Marques, especialista em gerenciamento de projetos e com ampla expertise na área técnica, explica que muitos problemas passaram a ser evitados a partir do momento em que o mercado começou a se adequar a esta normatização. “Problemas como ruídos fora dos parâmetros, durabilidade de material, acessibilidade, funcionalidade, segurança e manutenção, entre outros, passam a ser evitados no momento em que o arquiteto que faz a concepção e desenvolvimento do projeto se responsabilize por especificar corretamente e garantir a eficiência de todos os materiais que serão empregados na construção, de acordo com as características de uso de cada ambiente”, diz.

Ela ainda afirma que a correta aplicação da NBR 15.575 deve, inclusive, reduzir consideravelmente o número de acidentes nas edificações.

Inicialmente publicada em 2008, a NBR 15.575 é voltada para o desempenho das edificações habitacionais e começou a ser revisada pelo Comitê Brasileiro da Construção Civil em 2011. O resultado é um documento normativo que se divide em seis partes e inova ao introduzir o conceito de vida útil do empreendimento, que deverá ter uma garantia mínima, de acordo com as características de cada material.

A aplicação da norma influencia diretamente a forma como os arquitetos e projetistas concebem seus projetos. “Os projetistas têm que se especializar em relação às especificações e indicações dos diversos materiais de acordo com cada projeto, em particular. Além de esteticamente bonitos, os projetos precisam ser funcionais”, afirma Renata.

Ela enfatiza, porém, que será necessário um movimento conjunto de fornecedores, arquitetos, construtores e consumidores para que as regras produzam o efeito desejado. “Os fornecedores têm que se preocupar em esclarecer as especificações técnicas de cada produto, enquanto os arquitetos precisam se preparar para a escolha de materiais, sempre levando em consideração as necessidades de uso de cada ambiente. Aos construtores cabe realizar a aplicação correta, de acordo com as instruções passadas pelo projetista. E, por último, é de responsabilidade do proprietário seguir o manual do imóvel, garantindo a manutenção adequada a cada espaço”, acrescenta Renata.

A principal mudança na norma diz respeito à abrangência. Antes destinada aos empreendimentos acima de 5 pavimentos, agora ela deverá ser aplicada a todas edificações habitacionais.

Renata defende que os arquitetos , assim como ela, precisam ter experiência também nas questões técnicas. Os arquitetos que possuem este conhecimento em relação à adaptação à nova normatização terão condições de projetar com segurança garantindo ao contratante o atendimento das normas vigentes. “O conhecimento técnico de cada uma das etapas do projeto e da obra é primordial a partir de agora. E o grande problema é que o mercado de arquitetura não está preparado para absorver esta demanda, contamos com poucos profissionais que possuem uma ampla visão de todas as etapas do projeto, assim como da execução. Muitos arquitetos não projetam pensando no uso que o ambiente terá no dia a dia, mas se preocupam com fatores puramente estéticos. É preciso ter foco não só no design, mas, principalmente, na execução e no uso que cada ambiente terá depois de entregue ao proprietário. A arquitetura brasileira precisa voltar-se para a funcionalidade dos espaços”, conclui.| RenataMarques