Paulo Gomes relembra Zanine Caldas

Em 20 de dezembro de 2001, há 11 anos, a arquitetura brasileira perdia um mestre: José Zanine Caldas, arquiteto autodidata e dono de sólidos conhecimentos de edificações com perfil histórico. Zanine reinterpretou uma série de elementos utilizados na arquitetura tradicional brasileira e celebrizou-se pelo uso, em seus projetos, de materiais rústicos e alternativos, como madeira e peças de demolição. A análise sobre o estilo desse baiano da cidade de Belmonte é do arquiteto Paulo Gomes, que trabalhou com Zanine na década de 70, em seu escritório no Rio de Janeiro. “Em uma Barra da Tijuca que dava seus primeiros passos, muitos profissionais de renome, amigos e visitantes buscavam seu escritório a procura de mais informações sobre aquela forma peculiar de arquitetura”, relembra. Um desses amigos era Lucio Costa, autor do Plano Piloto de Brasília, que, diante das pressões que Zanine vinha sofrendo por sua formação não-acadêmica, em carta aberta, saiu em sua defesa. Paulo Gomes lembra que outros grandes arquitetos também se solidarizaram com a ideia de reconhecer a legitimidade de seu trabalho, inclusive o arquiteto Oscar Niemeyer: “Embora honrado pelas demonstrações de solidariedade, ele criou com o arquiteto Landri Gonçalves da Silva a firma de arquitetura e construção que viria a se chamar Zanine e Landri, extinta em 1984”. No inicio da profissão, Zanine foi maquetista e conviveu com expoentes da arquitetura nacional, inovando as técnicas da atividade. Também trabalhou junto ao Instituto do Patrimônio Histórico Nacional. Nos anos 50, desenhou e fabricou os famosos móveis Z. Entre os anos 70 e 80, na cidade de Nova Viçosa (BA), desenvolveu um sistema de pré-fabricação residencial, criando uma linha de móveis, dessa vez em madeira maciça. “Além desse extenso portfólio com obras residenciais e comerciais, a arquitetura de Zanine sugeriu sua reprodução, tendo a cidade de Búzios como maior exemplo de sua força de expressão”, observa Paulo Gomes. Relembrando a presença do urbanista Lucio Costa, em almoço, nos anos 70, no escritório de Zanine Caldas, no Joá: Por vezes, o mais suave dos mestres almoçava lá. Zanine avisava: o Lucio vem aí. Ligia então aperfeiçoava o cardápio e ela mesma, a toda poderosa do escritório, colocava-se a preparar um certo pavê muito apreciado por ele, pelo nosso mais ilustre e querido visitante, o doutor Lucio Costa! Era sucesso garantido. A conversa que teimava em não acabar, na varanda generosa, ia longe. Brasília era tema recorrente, comum aos dois. Ateliê e moradia num só espaço, era também point de artistas e outras nobres tribos. À frente, o verde da Lagoa do Joá era, na enchente e na vazante, igualmente esmeralda. Nessa atmosfera, aos 20 anos incompletos, fui recebido nessa família profissional e, por mais de dez anos, partilhei os motivos e intenções desta incrível trajetória, sendo testemunha do gênio e da singularidade de José Zanine Caldas, um conceito, um estado de espírito.| ZanineCaldasPauloGomes

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